Lacieverso

fogáreu

lume – 12

Milagres… Faryeh percebeu, com certa surpresa, que sua vida, de fato, revolvera-se. Em um minuto, era atirado ao chão e coberto de bosta e limo, e agora, todas as suas refeições volviam-se quentes e cheirosas, com temperos e sal, o sabor tão delicioso e tão macias que se dissolviam na boca. Agora acostumava-se à presença calorosa do irmão novamente, saboreando os abraços dados discretamente em momentos de silêncio enquanto se esquentavam depois de um treino sob a frondosa árvore nos jardins invernais, apesar do dissabor que possuía com sua cunhada — que apesar dos pesares, parecia cada dia mais revoltada com o fato de Faryeh ser o herdeiro dos dois. Acostumara-se com as pontadas de língua durante os chás florais da tarde e apesar de Ehre fazer o possível para conter a esposa, o irmão era ignorante dos sussurros nos corredores enquanto Faryeh passeava em direção à sala de estudos, que calamitosamente terminavam em choro durante à cama quente à noite, especialmente se Caroline fosse muito severa com a régua. Os salves de unguento que Kalila o medicava aliviava as dores, ao menos.
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Ainda assim, era melhor que a vida nas ruas, Faryeh ponderou. Era como se todos aqueles anos depois que perdeu os pais fossem apenas uma marca na sua memória, e olhando para além da janela na sala de estudos, percebeu que o final da primavera chegara, e isso marcava sua apresentação para a sociedade.
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— Vai dar tudo certo, Fay — Kalila se aproximou após a aula, e enquanto usava seus salves para massagear a mão direita de Faryeh, ela também acalentava seu coração. — Estuda com tanto afinco que tenho certeza de que não passará vergonha.
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— Eu sei o que as pessoas falam de mim, Kali. — Faryeh suspirou.
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— Não ligue para elas, jovem mestre — Sarvarth, que apesar de ainda fechada, se manifestava com frequência ao rapaz. Parecera tomar um gosto por ele, o que Faryeh era agradecido. Ao menos mais uma aliada ali. — Se disserem algo a você na minha frente, não deixarei ir em vão.
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— Obrigado, Sarv. Mas preciso aprender a eu mesmo me defender. Ou ao menos, ficar mais resistente. — Ele balançou as mãos, finalmente sentindo a dormência sair da ponta de seus dedos.
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— Nem todos são feitos de ferro…
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— Como a régua de Caroline?
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— Ainda assim, Fay, precisa aprender a lidar com pessoas. — Kalila sentou-se ao seu lado na cama, guardando os potes. — Conhecerá muitas pessoas, e muitos nobres a partir de agora. Nem todos quererão seu bem, mas nem todos demonstrarão isso. Algumas pessoas são fluídas como a água, envolvem o seu arredor para afogá-lo. Precisa encontrar alguém que seja como o ar, que o tire do chão e o faça voar, mas lhe deixe respirar.
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— Gostaria de fazer um amigo, porém — confidenciou.
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— Ou um amor? — Kalila provocou, e o choque fez Faryeh se engasgar. Depois de tossir e sentir o rosto completamente vermelho, ela encarou Sarvarth, que apenas desviou o olhar.
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— Nunca pensei que chegaria a isso.
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— Terá que se casar, por ser o costume. Além disso, é o herdeiro, precisa continuar a linhagem real. Seu casamento será muito vantajoso para Fogaréu, então precisa escolher bem sua noiva.
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Faryeh suspirou.
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— Mais uma transação, como os estudos, não é mesmo?
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— Não pense assim. Pense que será uma companheira fiel… ou companheiro.
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Faryeh se engasgou de novo.
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— Não posso me casar com um homem!
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— Por que não? — Kalila sorriu. — Se for vantajoso para o reino…
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— Como teríamos filhos?
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— Ah, meu caro, devo explicar-lhe como os bebês são feitos de novo…?
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— Uma vez foi suficiente, obrigado.
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— Bem, de fato, se seu coração se decidir por uma mulher — ao qual Kalila deu um pequeno olhar para Sarvarth, que parecia muito mais interessada em olhar o teto que encará-la de volta —, será sua decisão, e apenas isso. Assim como se apaixonar por um moço, ou por ninguém. Não importa o que o Destino o reserve, você será feliz, Fay — ela terminou de colocar as ataduras em sua pele, e deu tapinhas para garantir que elas não saíssem do lugar. — Ou mesmo se ele lhe reservar alguma tragédia, tenha fé. O Destino não é imutável, Fay.
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— Ehre sempre fala das Amarras do Destino, no entanto. — O olhar do príncipe vagou para os céus, tentando imaginar como seriam. — Dizem que elas guardam esta terra com seus anéis impenetráveis, são mais fortes que touros, e mais agitadas que as correntes do mar. Suas fitas permeiam todos os seres vivos e mantém as estrelas no firmamento. Parece-me impossível escapar delas, algo que nem os Deuses conseguem.
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— Bem, se tem alguém capaz de desafiar o Destino é você, Fay. — Kalila sorriu.
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— Está botando expectativas demais em mim, Kali. — Ele balançou a cabeça, negando sua afirmação. — Sou só um homem — Faryeh deixou os ombros penderem, exaustos. Apesar do salve, as mãos ainda latejavam um pouco. — Um príncipe pedinte.
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Um rusgar apareceu na testa de Kalila, mas antes que ela pudesse dizer algo, uma batida espalhou seu som pelo quarto, e a cabeça de Ehre apareceu no pequeno vão da porta, chamando-o.
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— Faryeh? Está livre?
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O rosto do rapaz se iluminou ao ver o irmão. Ehre andara tão ocupado com papéis e negócios que mal tinham tempo de compartilhar o desjejum matinal, isso quando o príncipe consorte não acabava acordado com as estrelas terminando algum tratado. Então era sempre fortuno suas visitas.
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— Sim!
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— Gostaria de discutir algo com você, pode vir?
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O rapaz se levantou de imediato, ao passo que Sarvarth se acomodou em um passar atrás de si, e Kalila permaneceu na cama, guardando os materiais que estava usando para curar as feridas de Faryeh.
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— Está tudo bem, Sarvarth, pode ir descansar. — Ehre a dispensou com apenas um gesto das mãos. — Eu e Faryeh precisamos de uma conversa séria.
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— Do que se trata, irmão? — Pelo tom, Ehre devia estar preocupado. — Fiz algo de errado?
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— Ah, claro que não. Mas precisamos discutir sobre a celebração de seu aniversário, e Leise gostaria de opinar. Ela preparou um chá e alguns quitutes, ao menos não terá de sofrer com o estômago vazio.
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— Tem aqueles folhados de Maresia?
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— Tem sim. Sei que são seus preferidos.
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— Então, vamos!
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