Lacieverso

fogáreu

brasas – 10

No dia do casamento, as preces de Ehre foram ouvidas. O dia amanheceu claro e caloroso, tornando o inverno apenas uma lembrança na forma da brisa fria que carregava suas flores. As primeiras a nascer aqueciam suas pétalas rosáceas no sol morno, e caíam delicadamente na grama do jardim. O jardim interno estava decorado com flores de cores brancas e algumas rosadas em seu centro, além de algumas cadeiras de um metal dourado com tranças de tecido branco e vermelho. Era como se o próprio clima estivesse abençoando o casal.
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— Endireite a coluna, mestre!
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Faryeh virou seu rosto rápido demais, sentindo o calor cobrir suas bochechas também. Ehre soltou uma risada, e ele também endireitou a coluna, apenas para garantir.
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— Quem é para estar nervoso é o noivo, Faryeh — brincou o mais velho, sentado em uma cômoda, enquanto um servo ajustava sua maquiagem. Ehre trajava vermelho, como era costume em Fogaréu os noivos usarem a cor, com delicados bordados dourados em todo seu entorno, assim como a capa brilhante e transparente dourada, como se fossem estrelas no pôr-do-sol. A tiara brilhava em dourado em seus cabelos, e embora seus cabelos não fossem tão compridos, estavam enfeitados em uma trança com correntes douradas também, além das tradicionais pinturas em suas mãos feitas de henna.
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— Mas parece quem está a prova sou eu, Ehre…
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Já Faryeh trajava azul, embora os bordados ainda fossem dourados. Sua roupa fora feita especialmente para si, com ele sendo medido e pesado para tal. Apesar de só uma semana ali no palácio, Faryeh adquirira cor em suas feições e mais alguma gordura nos ossos. Era o prazer de ter três refeições diárias, algo que ainda não estava acostumado. Sua maquiagem já fora feita, e agora, Kalila trabalhava com afinco nos desenhos de henna em suas mãos.
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— Acalme-se.
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— Controle os nervos, mestre. — Kalila deu uma risadinha enquanto um dos servos de Ehre, Ilirui, estava supervisionando a preparação dos dois. Em seu rosto havia uma expressão de exasperação, como se sua paciência tivesse esgotado no dia anterior.
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— Leise mandou seu servo reclamar a cada passo que dou, Ehre! — Faryeh fez um muxoxo. — Sei que não posso deixá-los passar vergonha, mas não é um pouco demais?
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— A princesa tem o que a princesa quer — Ehre contou. — Minha futura esposa é bastante caprichosa.
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— Que bom que é você com quem ela vai se casar…
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— Mestre, a coluna… — Ilirui repetiu.
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— Affe!
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— Está tudo pronto, mestre. — Kalila recolheu o material, e Faryeh ergueu as mãos para observar os desenhos melhor. Eram pequenas linhas intrínsecas, e a serva incorporava as marcas de suas cicatrizes ao desenho, já que suas mangas eram curtas.
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— Faryeh, venha aqui.
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O rapaz se levantou, e os dois ficaram frente ao espelho. Faryeh sentiu a emoção subir a garganta, porque por mais que tivesse algum fiapo de esperança, aquele futuro era algo que não estava o mínimo preparado. Ehre colocou as mãos em seus ombros, e as marcas em suas mãos combinavam com as suas.
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— Finalmente — Ehre sorriu —, parece um homem feito, Faryeh. As lágrimas se acumulavam no canto dos olhos de Faryeh, e Ehre apenas falou. — Não chore, senão terá que refazer a maquiagem.
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— Ehre… Nunca imaginei que um dia o veria se casar.
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O sorriso morreu um pouco no rosto de Ehre, que apenas balançou a cabeça.
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— Vamos. O futuro nos espera.
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Os dois caminharam juntos pelos corredores indo em direção aos jardins, com Faryeh sentindo aos poucos o nervosismo crescer ainda mais. O esforço de se manter reto e próprio, além de repassar todas as regras de etiqueta que foram ensinadas a força a ele pareciam sumir aos poucos, especialmente porque tudo parecia muito distante.
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Quando chegaram aos jardins, o mais novo deu um último olhar ao irmão antes de se separarem. Havia algo estranho ao ver as costas do seu irmão que caminhava em direção ao altar, enquanto Kalila o conduzia em direção ao seu lugar de honra, algo pesado em seu coração. Um pesar que vinha de várias emoções: luto, por seus pais não poderem estar ali para ver o casamento do primogênito; uma pitada de ciúmes porque não teria mais a atenção de Ehre toda voltada para si… e no fundo, ele sentia que alguma coisa estava errada. Sabia que aquele casamento era apenas um passo no plano de Ehre, que via seu dever como a aspiração final, mas a frase que passava na mente de Faryeh era apenas…
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Ehre, é isso mesmo que quer?
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Embora, não havia tempo para questionar aquilo. Seu local de honra era uma das almofadas ao lado direito de Ehre, mas antes de se posicionar para a cerimônia, foi abordado por vários nobres, que começaram conversas intermináveis. A que mais o chamou atenção foi um grupo de três meninas, não mais velhas do que ele, sorrindo e o enchendo de elogios.
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— É mesmo parecido com Ehre, Vossa Alteza… — uma o elogiou.
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— Somos irmãos — ele ofereceu a resposta gentil. — Compartilhamos pai e mãe.
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— E agora os dois são príncipes. Não é uma maravilha?
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— Quase um milagre!
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Faryeh sorriu, mas antes que pudesse responder, a cerimônia começou. Faryeh se sentou na almofada enquanto todos paravam para observar a dança. Noivo e noiva vinham de lados opostos no jardim e se encontravam no meio, onde uma tapeçaria antiga com bordados dourados contra o tecido vermelho descansava entre as árvores. Flores de vários tipos, todas brancas, enfeitavam os arredores, e os pés desnudos dos dois, enfeitados com a mesma tinta de henna, mas com temas diferentes, pisavam delicadamente, em uma dança ensaiada apenas pelos dois. Cada um tinha em sua mão um tecido vermelho, e conforme a dança avançava, eles se entrelaçavam, assim como seus destinos. Quando a música chegou ao ápice, eles finalmente formaram um nó, assim selando seus destinos. Ehre pegou uma faca cerimonial, e cortou a trança longa de Leise, e então foi a vez dela. Embora, com menos habilidade com uma faca, ela acabou por deixar uma das tranças de Ehre ainda intactas.
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— Desculpe… — ela murmurou.
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— Está tudo bem. — E ele segurou em sua mão, beijando-a com delicadeza. Leise sorriu, corada, e pela primeira vez, eles se beijaram, selando o pacto.
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Faryeh tinha lágrimas nos olhos. As emoções do irmão se casando, e a forma linda da dança… neste momento, só conseguia ter inveja. Gostaria, de algum dia, ter um casamento da mesma forma. Mas antes que pudesse reclamar, um grito se ergueu na multidão:
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— Vamos comemorar!
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A partir daí, bebida e comida foram servidas, e até mesmo Faryeh tomou um pouco do vinho, embora o achou ácido demais, e experimentou vários pratos, desde as pequenas tortinhas de queijo com geleia de pimenta, ao faisão e batatas assados, o algum prato indiano aqui. Quando a tontura do vinho trouxe lugar ao calor, ele se levantou e andou mais um pouco, esperando que o ar noturno o refrescasse. Antes de ir, deu um olhar ao irmão, que sorria e bebia mais do que todos. Era mesmo uma noite perfeita.
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Caminhando pelos jardins, acabou sentando-se debaixo de uma árvore mais alta, onde o vento sacudia as folhas com carinho, e o refrescava. Mas o vento também trouxe palavras aos seus ouvidos…
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— Sobre o príncipe Faryeh…
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Estavam falando sobre ele? Identificando de onde vinha, era do grupo de moças mais cedo. Faryeh sabia que não era bom bisbilhotar, mas elas estavam falando dele? O que seria? Elas tinham copos de vinho em mãos, e suas feições estavam mais rubras do que as dele.
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— Aquelas marcas… são de sujeira?
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— Não pode ser. Ele chegou tem quase duas semanas. É impossível que não tenha tomado um único banho.
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— Talvez a sujeira não tenha conseguido sair por completo?
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— O espírito da pobreza que não deve conseguir desgarrar dele — uma delas riu.
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— O verdadeiro príncipe mendigo!
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Era com a mesma boca que teciam elogios que o esfaqueavam por trás? Faryeh ficou em choque, porque jamais pensou que sua presença não seria bem-vinda ali. Suas bochechas se avermelharam, e apesar de ainda estarem ocorrendo as festividades, ele não conseguia pensar em qualquer outro lugar para ir senão seu quarto. Começou a andar com passos fortes, e logo sentiu a presença de Sarvarth atrás de si, mas não olhou para ela.
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— Mestre, está tudo bem? — A pergunta ficou sem resposta, enquanto os dois caminhavam pelos corredores vazios do palácio. A guarda não mais tentou perguntar algo, mas quando chegaram em seu quarto, encontraram Kalila.
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— Mestre Faryeh? O que está fazendo?
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— Preciso ficar sozinho, Kalila.
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— Mestre…
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— Por favor.
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Ela apenas assentiu, e deixou o quarto, fechando a porta atrás de si. Kalila deu um olhar inquisidor para Sarvarth, que apenas deu de ombros, mas os olhos se voltaram para a porta quando começaram os soluços e o som de choro vindo do quarto.
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— Ah, Fay… — Kalila suspirou.
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— Ele tem que ser forte para aguentar a nobreza. — Foi a resposta dura de Sarvarth. Kalila sabia que o jovem tinha muito o que aprender, mas…
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— Ele é apenas um menino, Sarvarth. Não muito mais novo que você ou eu.
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Sarvarth deu de ombros.
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— Ele precisa ser forte.
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Mas não havia forças naquele momento, enquanto as servas o ouviam desabar por detrás das paredes, o choro abafado pela comemoração distante, enquanto Faryeh rezava para que os Deuses o ouvissem, embora suas preces nunca obtiveram respostas.
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