fogáreu
brasas – 9
Quando o final da semana se aproximou, Faryeh se chocou ao notar que se acostumou com uma facilidade impressionante à rotina pesada do palácio, e até mesmo as assombrosas aulas de etiqueta o faziam esquecer da realidade das ruas. O sonho vinha ainda todas as noites, e apesar do calor elevado de seu corpo, Faryeh não mais conseguia dormir sem os lençois macios e frios da seda, o travesseiro de pena de ganso faziam uma bagunça matinal de seus fios castanhos, que sempre eram desembaraçados e cuidados com uma variedade de óleos coloridos e perfumados pelas mãos macias de Kalila, que também o vestia todas as manhãs. As aulas de etiqueta também começaram a se misturar com a de letras e de história, e Faryeh se maravilhava com o aprendizado.
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Estava em uma das aulas de cálculos quando uma batida na porta interrompeu a pena de Faryeh e a voz do instrutor, e os olhos do príncipe se ergueram para ver Ehre bater casualmente contra a madeira da porta, um sorriso maroto em seu rosto.
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— Ehre! — Faryeh chamou o irmão. Fazia alguns dias em que não se viam, porque Ehre estava ocupado com alguns assuntos, tanto de Estado quanto do casamento, que se aproximava a cada dia. Faryeh sentia o nervosismo crescer no estômago como se fosse ele mesmo a se casar.
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— Posso roubá-lo um pouco, Sr. Ailan?
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O instrutor ficou um pouco incrédulo.
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— Como recusar um pedido do futuro Rei? Mestre Faryeh, por favor, voltaremos a este assunto na próxima aula, então conclua sua leitura até lá.
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— Certo! — Faryeh assentiu, fechando o livro com força e o colocando em cima da mesa, sabendo que Kalila o levaria para o quarto. Levantou-se de supetão, empolgado em falar com o irmão. Ehre o guiou para fora da sala, e os dois andaram pelos corredores.
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— Como estão as aulas?
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— Não vou mentir, Ehre… — Faryeh suspirou. — São difíceis, mas eu gosto muito de aprender.
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— Qual sua aula preferida até agora?
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— Acho que essa de agora, matemática… embora história também seja fascinante.
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— É mesmo meu irmão. — Ehre soltou uma risada alta, assustando as pessoas ao seu redor, mas Faryeh conhecia ele o suficiente para lembrar da sua risada livre e sem peso nos ombros, e embora aquela fosse parecida, ainda não era certa.
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— Tem algo a lhe preocupar, Ehre?
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O mais velho pareceu surpreso, e indicou o objetivo de sua caminhada: um dos corredores com várias sacadas que davam a visão perfeita do jardim, sua grama macia e verde, mesmo no inverno. Ehre sentou-se em uma das bancadas amarelas, com Faryeh a acompanhá-lo, este segurando uma almofada laranja entre os braços.
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— Faryeh, quero confidenciar-lhe algo. O motivo de meu casamento.
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— Hm… não é por que ama a princesa Leise?
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Ehre soltou mais uma risada.
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— Ehre…
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— Um dia, você irá entender. O que eu queria dizer era… na verdade, eu gostaria de perguntar-lhe algo, irmão.
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— Como assim?
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— O que acha dos não-humanos?
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A pergunta surpreendeu Faryeh. Afinal, o que havia de achar?
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— O que quer dizer? Eu os detesto, Ehre. — A expressão de Ehre se escureceu, enquanto Faryeh continuava. — Invadiram a cidade, quebraram os muros… Atacaram a ferraria, mataram nossos pais… na minha frente, Ehre. Quase me mataram. — Faryeh estremeceu. — Eu às vezes sonho com o fogo na ferraria. Lembro de nosso pai dizer que nada conseguiria queimar a fornalha, e aquele fogo destruiu-a, assim como a casa…
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— Fay… — A voz do outro saiu baixa em forma de uma confidência. Seu olhar estava sério e preocupado. Faryeh engoliu em seco, sabendo, de forma inconsciente o que ele perguntaria. — Foram suas chamas? Que queimaram a ferraria? Por isso não conseguiram apagar o fogo?
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— Ah…
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Faryeh baixou o olhar. Apenas Ehre, por ser seu irmão, conhecia aquele segredo tão íntimo. Tendo acompanhado seu crescimento, Ehre já tinha presenciado o fenômeno que acometia o mais novo desde seu nascimento. Faryeh não tinha apenas as marcas que percorriam seu corpo como presente de nascença, ele possuía também uma habilidade única com o fogo. Uma magia que só poderia ser uma maldição dos deuses. Ele nunca se queimou com alguma panela quente, e nem mesmo água fervendo lhe dava queimaduras além daquelas que já possuía. Seu corpo era mais quente do que qualquer outro, e por isso ele frequentemente sentia calor durante a noite. E, se ele se concentrasse… em suas mãos, nascia uma pequena chama, que vinha tão fácil quanto respirar, mas ao mesmo tempo, ele não conseguia controlá-las. Faryeh tinha medo de invocá-las, afinal… vira de perto o que elas poderiam fazer.
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— Ehre… — Sua voz falhou. De repente, ele não estava mais no conforto do Sol e seu irmão. O amarelo das almofadas se confundia com as chamas ao seu redor, e com o olhar de sua mãe
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monstro, ela gritou,
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mas quem era o monstro?
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e o calor à sua volta era tudo que sentia, além do cheiro de carne queimada, as cinzas tocando seu rosto e se desfazendo…
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E no meio do furacão, sentiu as mãos de Ehre em seus ombros, o puxando contra si. Faryeh ainda lutou, sentindo o corpo aquecer, e notou que suas mãos estavam sobre o rosto, puxando e o distorcendo, enquanto suas palmas criminosas se esquentavam. Sua própria respiração estava acelerada, mas ele conseguiu murmurar uma resposta.
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— Eu… Eu não sei…
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Ehre segurou seu rosto, tirando-o do pesadelo e o encarando. Faryeh ficou ainda alguns segundos mergulhado no passado, antes de entender que estava bem.
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Estava seguro.
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o fogo lhe segue
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— Estou aqui, Faryeh. Está tudo bem. Não se perca em memórias.
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— Eu não sei… — a voz dele ainda era um sussurro.
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— Está tudo bem, irmão. — Ehre trouxe Faryeh para seu colo, e o outro aninhou a cabeça contra seu pescoço, escondendo o rosto contra a pele do outro. Ehre tinha o cheiro de especiarias, mas também, aquele familiar odor de cinzas, que sempre o fazia sentir em casa e seguro. Acima de tudo, queria aquele conforto. Queria… — Desculpe perguntar algo tão doloroso sem que você estivesse pronto. Está tudo bem.
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estava mesmo? As chamas ainda o chamavam, ainda estavam ali. Seria mesmo que tudo estava bem?
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Ehre passou os próximos minutos acariciando os cabelos do irmão, enquanto Faryeh acalmava a própria respiração. Enquanto Ehre trançava seu cabelo de novo, o mais novo fechou os olhos, aproveitando o carinho.
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— Sabe, Fay… Eu vi muitas coisas na guerra. Muitas delas são difíceis de descrever, então eu sinto muito que você tenha passado por algo do tipo, na nossa própria casa. Não era para ser assim, sabe. Essa guerra começou com um mal-entendido, e eu queria, mais do que tudo, o fim dela.
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Faryeh respirou fundo, aspirando o último das cinzas. Ele volveu o olhar para o irmão.
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— Mas, Ehre… você não encerrou a guerra? Não matou o rei dos não-humanos?
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Havia algo de estranho no sorriso que Ehre o dirigiu. Não era um de vitória, nem de glória… Era quase um de arrependimento, com uma pitada de resignação. Ele ajeitou Faryeh no colo, e continuou.
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— Uma guerra não se termina com a morte de ninguém, Faryeh. É isso que quero que aprenda. O que precisamos é mudar a mentalidade das pessoas, para que a guerra não continue. Líderes podem ser substituídos com facilidade, e guerras continuarem. O que precisamos mesmo é de paz e entendimento. Este é o meu legado: a paz entre humanos e não-humanos.
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— Ehre! Eles te machucaram! — Faryeh não entendia. Como seu irmão poderia ser tão benevolente? Beirava a estupidez, uma inocência estúpida! — Você não pode mais ter filhos… Você, que sempre quis uma família enorme!
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Ehre apenas balançou a cabeça. Faryeh começou a ficar ainda mais indignado, mas antes de conseguir protestar ainda mais, Ehre o interrompeu.
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— E eu os machuquei, também. O que eu fiz… não pode ser nunca perdoado. No entanto, eu ainda acredito que possa haver paz. Os dois lados precisam se redimir.
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Faryeh ficou em silêncio, apertando os punhos em seu colo. Parecia algo muito estranho para entender — então os não-humanos também eram vítimas? Mas como poderiam ser, quando a lembrança de garras em seu pescoço o sufocava, assim como os gritos finais da mãe deles assombrariam o resto de seus dias? Sua cabeça estava confusa, mas se Ehre confiava neles, deveria haver um motivo. Especialmente porque seu irmão passara pelos campos de batalha… Ele, quem mais deveria odiá-los, agora buscava uma concessão. Talvez fosse o certo a se fazer… Talvez Faryeh fosse apenas jovem demais. Talvez ele ainda aprendesse o certo…
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Apesar do sentimento pesado em seu coração.
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— Não sei o que pensar, mas… não seria justo da minha parte não apoiá-lo, Ehre, quando fez tanto para mim. Se é a paz que deseja, como eu poderia protestar? Eu irei ajudar-lhe a realizar todos os seus sonhos, irmão, se isso depender de mim.
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O sorriso de Ehre era a coisa mais preciosa para Faryeh, e quando o irmão trouxe a mão para sua cabeça, bagunçando seus cabelos de maneira gentil, ele quase pode ver um pouco de lágrimas no canto dos olhos castanhos de Ehre.
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— Você é muito gentil, Faryeh.
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Os dois permaneceram abraçados mais um pouco. Quando o olhar de Ehre volveu-se aos céus, ele apenas comentou.
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— Tomara que não chova no dia do meu casamento…
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