fogáreu
brasas – 8
— Vamos começar. Temos muito o que fazer até o casamento, que é pouquíssimo tempo, para torná-lo no mínimo apresentável à sociedade.
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Faryeh engoliu em seco. Aquela sala era bem diferente da maioria do palácio, com paredes enormes e com as janelas fechadas, fazendo o calor úmido do ar travar em sua garganta, tornando mais difícil respirar. O pó de giz branco manchava as pontas dos dedos de Caroline enquanto ela gesticulava e escrevia alguns dizeres no quadro negro, mas Faryeh não sabia ler — aceitara o presente de Ehre, mas agora, a tarefa parecia muito mais assombrosa. Ele teria que aprender o conteúdo de todos aqueles livros que enfeitavam as paredes? Em tão pouco tempo? Faryeh mal era letrado, e as vogais pareciam assunto de outra vida. Como esperar que o rapaz simplesmente aprendesse a ler, a escrever e copiar o assunto que todos os outros nobres nasciam sabendo?
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— Vamos começar com os talheres.
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À sua frente, Kalila colocou talheres e pôs a mesa. Supôs que seria servido o café da manhã, mas quando sua mão foi em direção a um dos garfos, Caroline agiu, a pesada régua de metal batendo em sua mão.
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— Ai!
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— Não começamos o jantar dessa forma, Alteza.
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— Como assim?
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— Você irá aprender a se portar como uma pessoa normal, e não como um pedinte. Você tem muito mais o que aprender, mas esse é o mínimo esperado de um nobre. No entanto, Mestre, não és um nobre, e sim o futuro herdeiro do trono. Tem noção de que o futuro de uma nação cai sobre seus ombros frágeis e franzinos? Mais do que orgulhar seu irmão, precisa aprender a ser um verdadeiro líder. É isso que preciso enfiar na sua cabecinha pequena.
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Faryeh ficou sério. Era realmente, responsabilidades demais. Ele só tinha quinze anos — como absorver que agora tinha um reino inteiro a zelar? Seu olhar âmbar se tornou sério, e ele assentiu.
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— Prometo me esforçar.
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— Não esperava menos. — Apesar de estar sorrindo, tinha algo um pouco estranho nas feições de Caroline. — Espero que saiba que estou autorizada a usar de quaisquer métodos para discipliná-lo, mestre. Dentro dessas paredes, não é maior do que ninguém.
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Faryeh assentiu, apesar do pequeno calafrio que percorreu sua espinha. O que ela queria dizer com “quaisquer métodos”? Ele seria punido caso fizesse algo errado?
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— Pegue o garfo certo, agora.
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Mas qual era o garfo certo? Tudo bem que ele prometera se esforçar, mas sem quaisquer instruções, a instrutora queria que ele simplesmente adivinhasse qual dos cinco garfos de formatos e espinhos diferentes ele deveria pegar? Arriscando por um do meio, sua mão mal alcançou a prata quando sentiu mais uma vez a régua pesada de metal bater contra as costas da sua mão, mas agora, Caroline atingira uma das cicatrizes de seu corpo. O choque foi tamanho que Faryeh se curvou, puxando a mão contra si, e ofegando enquanto sentia as primeiras lágrimas se formarem no canto de seus olhos.
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— Caroline, desculpe, mas…
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— Srta. Caroline, vossa Alteza.
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— Srta. Caroline… As marcas são sensíveis. Mesmo que não as veja, elas cobrem meu corpo e doem ao serem tocadas. Por favor, poderia não me bater com essa régua?
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— Ah, claro. Essas marcas horrorosas. Já ia reclamar com Kalila que não esfregou seu corpo direito, Alteza.
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Faryeh fez um muxoxo, se sentindo incomodado e envergonhado. As marcas cobriam sua pele desde o peito para os braços, além de um pouco do estômago, e eram chamativas por sua coloração e textura. Era algo que lhe trazia embaraço, mas não havia como evitar, porque desde que se lembrava as possuía.
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— Não consigo tirar elas, se é o que quer dizer. São sinais de nascença.
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— Horroroso. Bem, eu quero que entenda algo, Alteza.
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Caroline aproximou-se de seu assento, ficando por detrás do príncipe, tocando em seus ombros com suas mãos que mais pareciam garras pelas unhas, e murmurando contra seu ouvido.
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— Eu não me importo. Quero apenas que aprenda o suficiente, mestre, e farei de tudo para que seja rápido. Não quer dar orgulho ao príncipe consorte real? — E com um movimento rápido, ela o atingiu de novo. — Pegue o garfo.
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Faryeh engoliu em seco.
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Foram mais três tentativas até ele acertar, todas acompanhadas com o som de metal e o choramingo de Faryeh.
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Serei forte, pensou entre soluços. Eu serei o príncipe herdeiro, e Ehre ficará orgulhoso, e eu finalmente terei um lugar para ficar. Não mais voltarei para a sarjeta. Eu… Eu vou ser forte. Por Ehre.
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Ao final do dia, as mãos de Faryeh pulsavam em vermelho, mas ele não deixou as lágrimas caírem escondido em seu quarto, com Kalila aplicando um unguento aos machucados, que tinha um cheiro forte de menta e ardia de uma maneira que aliviava os machucados. Ela também limpou o sangue com uma água morna e leitosa, que ajudou-o a conseguir fechar a mão de novo.
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— Aguente firme, Fay. — Ela tentava o encorajar. — Prometo que não é tão ruim quanto na primeira vez, você irá se acostumar aos poucos com os ensinamentos e aprenderá mais rápido.
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Faryeh não disse nada, tentando apenas conter a vontade silenciosa de chorar e sentindo a dor inchar suas mãos, as cicatrizes inflamadas e sensíveis ao toque. Ele nunca tinha sido atingido nelas, e agora, além de dolorido, ele se sentia vulnerável. Caroline descobrira um dos seus pontos fracos que nem sabia existir, e agora, ele queria voltar para a ignorância. Era apenas um garfo. Como isso ofenderia o líder de um país vizinho, ao ponto de causar um conflito internacional? Isso parecia muito absurdo, mas poderia ser apenas a mágoa em seu coração falando. Talvez aquilo fosse mesmo importante, e ele precisava aprender. Ele assentiu, prometendo a si mesmo que seria mais forte.
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— Quer que eu traga o jantar para seus aposentos? Assim não precisará ir à sala de jantar…
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Onde teria que se alimentar com o Rei, Leise e Ehre, e o magoaria se errasse os talheres justo depois da primeira aula. Faryeh assentiu, e depois de comer um sanduíche cortado aos pedaços pela serva, Faryeh banhou-se e foi acolhido na cama, e apenas quando Kalila lhe deu boa noite e fechou a porta atrás de si é que Faryeh se permitiu derramar as lágrimas que estava guardando até então.
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Serei forte, pensou entre soluços. Eu serei o príncipe herdeiro, e Ehre ficará orgulhoso, e eu finalmente terei um lugar para ficar. Não mais voltarei para a sarjeta. Eu… Eu vou ser forte. Por Ehre.
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Quando adormeceu, pela primeira vez em anos, o sonho não lhe perturbou, tamanho seu cansaço.
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