capítulo 2
entedie-me
A chuva caía com uma miríade de gotas prateadas, enquanto luz azul do pequeno aparelho nas mãos de Dave nos iluminava. Nossa cobertura improvisada, um forte de travesseiros, era pequena e cheirava à infância. O sol morria atrás das nuvens, e a escuridão se arrastava sobre nós como uma velha amiga. A terceira componente daquela dupla incansável. Havia apenas Dave e eu, algo que garanti com o passar dos anos.
— Você precisa foder, Alex. — Revirei os olhos no escuro do quarto.
Naqueles tempos, minha vida se resumia a duas coisas: evitar pensar que as minhas notas decadentes poderiam me fazer perder a bolsa da faculdade; e evitar pensar que falhava no meu relacionamento com Dave. Até então, ignorar tudo estava funcionando muito bem.
— Dar absurdamente esse cu quase virgem de novo, e manter alguém ao seu lado. Quanto tempo faz desde Iza?
— Não precisa mencionar esse nome — eu arquejei. — Eu preciso é estudar mais anatomia, senão perco na matéria. O William faz provas difíceis… vou acabar morrendo antes de me formar.
— Por isso mesmo. Por que aprender a teoria quando se pode aprender na prática?
— Você sabe que não funciona assim, né?
Naquele dia em particular, ocupamos nossa tarde em desempacotar o último de seus pertences das caixas, para o quarto em que ele ocuparia na nova casa da sua mãe. Achamos vários tesouros na mudança; várias cartas de amor — que não me deixou abrir —, as quais Dave ficou vermelho ao ver, dentro de cadernos antigos, com algumas histórias infantis rabiscadas em garranchos; e o prêmio máximo: seu velho
Nintendo 64, que ainda funcionava. É claro, nosso impulso seguinte foi gastar nossa tarde preguiçosa com campeonatos, até que Dave propôs:
— Se eu ganhar essa corrida, você tem que sair hoje à noite.
Eu nem levantei os olhos da televisão. Eu já tinha planos de sair, porque, afinal, era Halloween, e era uma tradição na cidade recolher doces das casas de estranhos. Mas por causa da previsão de tempo ruim — diziam que ia ser a noite mais fria em quarenta anos, e mal começara o inverno —, além da chuva, Dave ficou receoso de sair, e por isso estávamos em seu quarto fazendo nada. Estava com preguiça, mas… se tivesse sido mais sábio, eu teria me levantado do meu confortável travesseiro, xingado Dave, pegado minhas coisas e ido para o andar de baixo para conversar com sua mãe, Kate, enquanto ela preparava o nosso jantar. Teria sido a aposta mais segura que eu faria naquela noite, e eu não teria desafiado o Destino.
Só que, se há algo que você precisa saber sobre mim, é que eu nunca perdi no
Mario Kart.
Eu me ajustei, sentia o fogo da competição queimar por dentro. Dave me conhecia. Pior, ele sabia exatamente o que fazer para me motivar. Eu ainda estava indisposto a namorar qualquer pobre alma que ele me arranjasse, mas uma competição? Merda, eu precisava de uma. Qualquer coisa para tirar meus pensamentos do manguezal de onde estavam.
Acho que tínhamos aquilo em comum, Jesse.
Eu peguei o travesseiro e gritei contra ele quando o maldito casco vermelho me atingiu e eu perdi.
— Não acredito! — Minha voz abafada saiu sufocada em minha garganta, enquanto a risada alta de Dave ecoava pelo quarto.
Eu me joguei na cama de casal, frustrado. Meu amigo sentou-se ao meu lado, e observava a minha idiotice.
— Pare de ser tão dramático e pegue seu telefone — Dave disse, e eu suspirei teatralmente.
Ele me acertou nas costelas e desisti. Tirei meu celular do bolso e o entreguei.
— Quando você vai jogar fora esse pedaço de lixo? — reclamou; usava seus dedos esguios para liberar a senha de destrave da tela, que conhecia tão bem quanto a sua própria.
— No dia de São Nunca. Pare de reclamar e termine logo com isso.
Alguns momentos de silêncio caíram sobre nós. Eu comecei a contar as estrelas do seu teto. Havíamos passado algumas tardes para colocá-las na ordem da constelação de Virgem. Quase caí em um sono preguiçoso. Ter a presença confortável de Dave e os passos inquietos de Kate no andar de baixo eram tudo para mim.
Mas então, a interrupção.
— Você gosta quando as pessoas mordiscam o lóbulo da sua orelha?
— Dave, nós nunca vamos ficar juntos. — Eu sorrio e coloco uma mão sobre seus olhos; ele recuou, me xingando no processo.
Apesar disso, ele continuou:
— Apenas responde. A próxima: Eu gosto de passar meus dias fazendo…
Eu levantei minha meia sobrancelha — fruto da adolescência rebelde em que eu as raspava e nunca mais tinham crescido da mesma maneira.
— Pra quem você tá mandando mensagens?
— São só algumas perguntas do
app, pro seu encontro desta noite. A propósito, você ainda não respondeu às perguntas dele.
— Ah, esta é uma pergunta fácil. Eu passo meus dias sendo babá de um bebezão, que tem problemas em sair de casa e acha que eu preciso de um namorado. — Dave não achou minha resposta tão engraçada, então minha barreira improvisada foi socada e algumas penas flutuaram no ar enquanto minha risada ecoava.
Eu nunca vira Dave tão determinado em achar alguém para mim. Normalmente ele apenas soltava algumas alfinetadas, porém, com aquela aposta perdida no
Mario Kart, era imparável. Eu não pensei em nada daquilo naquela época.
Você significava nada para mim naquela época.
— Quem é o cara, de qualquer forma? Como você o conheceu? — Tentei olhar para o aplicativo de conversa, em que ele, furiosamente, digitava, mas ele desviou as mãos. — E deveria lembrá-lo que tinha um morto-vivo nelas? — e continuou suas travessuras.
Não havia salvação para mim.
—
Tinder — ele disse simplesmente.
—
Tinder… Dave! — xinguei.
— Você precisa, desesperadamente, foder. Fique feliz que não foi o
Grindr. Prometo que apenas coloquei suas melhores fotos. Eles gostaram da sua tatuagem na cara, pelo visto. Eu filtrei os resultados… — Aquela foi a última gota.
Tirei o telefone de suas mãos e olhei para a tela. Fiquei surpreso pelas longas conversas com várias pessoas. Quando aquele esquema tinha ido tão longe?
— Ao menos, dê uma chance a este daqui. Ele parece emo, porém, acho que faz o seu tipo — ele pediu, e olhou por cima do meu ombro.
— Eu não preciso de um namorado, Dave, eu já te disse isso um milhão de vezes… — suspirei pesadamente.
Meu amigo apenas abaixou seus ombros e assentiu.
— Apenas acho que você precisa de uma vida às vezes… você está feliz assim desse jeito?
Aquela era uma pergunta de difícil resposta. Não queria machucar os sentimentos de Dave. Eu estava feliz. Ao menos, era o que pensava. Não conhecia nada diferente daquilo, e evitava pensar muito sobre coisas que não poderia obter. Baguncei seus cabelos lavanda, e suspirei de novo.
Algumas coisas eram difíceis demais.
Eu me levantei da cama e passei a mão pelos meus próprios fios ruivos no processo.
— Com quem você falou? — disse, desistindo um pouco. Eu vi seus olhos cor de mel brilharem levemente, e, no fundo, era aquilo que importava. Todo aquele sofrimento valia a pena. — Posso ao menos ver as opções?
— Você vai gostar desse, sem dúvidas. Seu nome é Jesse…
— Ah, ser jovem e inocente. Essa geração não sabe nada de história. — Engoli uma risada. Ainda assim, continuei. — O que tem de tão especial nesse tal de Jesse?
— Ele se interessou pela sua tatuagem. Disse que gostaria de ver mais por si mesmo. Também está “por perto” e “tem local”. Não entendo o que ele quis dizer com isso, mas se está próximo, talvez seja uma coisa boa, não é?
Eu consegui cobrir o rosto com as mãos e segurar uma risada histérica; essa era a coisa da boa da amizade com Dave. Ele sempre acreditava no lado bom das pessoas.
— Me mostre a foto dele — eu disse, e tentava ao máximo manter o rosto sério.
Dave era inocente para o lado obscuro da internet; e eu, ao menos, queria saber se lidava com um homem ou um robô. Eu não pretendia liderar a
skynet à sua próxima rebelião em meu apartamento…
Dave fez o que eu pedi, e eu admirei as pequenas imagens no aparelho. Não havia muito a ser visto. A primeira era de bíceps, o homem com certeza malhava muito. A segunda foi de seu tanquinho. A terceira…
— Opa, opa, vou ter que usar a proteção infantil no meu celular se você continuar usando esse aplicativo — comentei, ficando tão vermelho quanto os meus cabelos.
Quem deixava esse tipo de foto no perfil?
— É só uma bunda, Alex. Você já viu bundas antes. Cresça um pouco, vá. — Ele riu de deboche, mas o conhecia bem o suficiente para notar o nervosismo.
Tentou pegar meu celular de volta, mas eu tinha vantagem, e ele, chance alguma. Havia uma quarta foto.
Aquela chamou a minha atenção.
— Sabia — ele disse. E, maldição, Dave me conhecia como a palma de sua mão. — Não quer conhecê-lo agora?
Naquele tempo, Jesse, eu não sabia de nada.
Naquele tempo, o mundo era bem mais simples.
Foi um erro sair sem um guarda-chuva, no entanto, uma vez que estava decidido a ir, eu queria encontrá-lo imediatamente. Chuva pesada caía sobre meus ombros, mas a jaqueta impermeável era o suficiente para me proteger. Era, aparentemente, perto o bastante para que eu não me cansasse apenas por andar; e meu “futuro namorado”, nas palavras de Dave, estaria me esperando em sua casa.
Nada poderia dar errado, não é mesmo?
Ser brutalmente assassinado não estava em meus planos para aquela noite, por exemplo. Um carro solitário passou velozmente por mim, e jorrou água suja da rua. Fiquei encharcado e encardido.
Olhei para meu estado. Eu não poderia ir para um encontro daquela forma. Pensei em desistir completamente da “oportunidade incrível” que Dave me arranjara, ou ir para casa me trocar antes. Mais atrasado do que eu já estava, impossível. Meu provável amante poderia esperar mais alguns minutos em minha indecisão.
Qualquer que fosse a minha escolha, teria que atravessar aquela ponte.
O rio que corria por debaixo dos meus pés desembocava no mar, e com o rugido da tempestade, os respingos de água alcançavam as pedras, que formavam os pilares da ponte, a qual sacudia em resposta. Eu tremia com o vento frio, que balançava as cordas de suspensão e que bramava com vontade em meus ouvidos; trovoava em algum lugar ao longe. Ao mar, relampejos. Francamente, a noite poderia ter terminado bem ali. Algum ser superior poderia resetar o dia, me fazer não perder a corrida do
Mario Kart e, assim, não perderia aquela aposta maldita.
Quando, de todas as vezes que jogamos, Dave ficara tão bom naquele jogo? Eu provavelmente assustaria meu encontro com meu mau humor e estado lamentável.
Não me recordava o motivo, mas peguei o telefone, talvez para cancelar, ou para ver as horas. Lembrava de dar o primeiro passo naquela ponte e de puxar o aparelho. Lembrava do vento forte nos cabelos e de levantar a cabeça. Lembrava do capuz cair e a chuva molhar minhas pálpebras.
A luz amarela sobre a jaqueta vermelha.
Quando encontrei Jesse pela primeira vez, não imaginava que ocuparia uma parte tão grande do meu coração. Ali, naquela ponte, eu cruzava meu caminho com o Destino.
A cena de um filme em câmera lenta. O vi, a jaqueta vermelha e os tênis xadrez sobre o parapeito da ponte. O ofegar de esforço, o olhar vermelho e decidido. Uma memória, tão revirada que poderia ser nova, gritou:
E, antes que percebesse, o telefone escorreu das mãos molhadas e corri.
Foi com uma força, que eu não sabia possuir, que meus braços alcançaram os seus que caíam; e, igual a duas bonecas, despencamos com um estrondo de trovão no chão molhado; a dor nos lembrou da vida que quase escapou no rio selvagem abaixo. Respirei pesadamente, como se tivesse me afogado. Mas era isso que acontecera. Afoguei-me em memórias, e continuava vivo em uma. Não via o homem em meu colo. Era outra pessoa, uma outra noite.
Apenas notei o erro quando senti sua mão pesada em meu peito.
Arfei, e tentei me situar. Pois eu estava no presente, não no passado, com água a molhar as mãos, e não sangue. Ajeitei os cabelos de qualquer modo, e, finalmente, vi quem eu salvara.
— Desculpe… — Tentei dizer, a voz fraca e rouca.
Tremia. Mãos longas e alinhadas me empurraram; ficamos distantes um do outro, porém, ainda sentados debaixo da chuva, com a respiração desencontrada.
Comecei a analisar você. Não mais que um rapazote magricela. Seus olhos, impossivelmente azuis, me encararam com raiva, e então, o céu acima de nós, como se, pela primeira vez, notasse a chuva. Os cabelos rebeldes loiros recebiam as gotas aleatórias, e correu uma mão por eles para afastá-los da testa. Era como se, finalmente, percebesse onde estava, e como estava. Você era uma confusão de casacos vermelhos, jeans apertados e olhos assustados. Havia um machucado em seu rosto, acima do olho esquerdo. Um hematoma que começava a arroxear, e parecia ter sido um golpe bem feio.
— Está tudo bem…? — foi a minha primeira pergunta.
Eu tinha tantas. Centenas. Milhares. Mas a verdade era só que eu queria ouvir a sua voz. Queria quebrar o feitiço que você pusera em mim; da aura etérea que se formava à minha frente, do espelho d’água da miragem, feita pela chuva e pela luz amarelada do poste. Eu queria saber se você existia mesmo.
Você, é claro, foi bastante eloquente.
— Olha, eu posso ligar para a polícia… — Foi quando notei a falta do celular, e percebi que o havia largado a alguns metros de nós. Levantei-me e fui em sua direção para pegá-lo. Você permaneceu parado, quieto, olhava para o céu. — … Ou para um hospital se for necessário. — Acrescentei.
— Não precisa. Me deixe em paz.
Meu celular estava com parte da tela rachada e havia se desligado. Eu esperaria chegar em casa para cumprir a promessa de ligar para algum daqueles lugares. Rezava para que, ao menos, o aparelho ligasse de novo depois de passar a noite no arroz… suspirei e olhei de novo para você.
Parecia um animal ferido. Perdido em sua dor, abandonado à própria sorte.
— Você vai ficar aí? Não tem pra onde ir?
Um dar de ombros. Era a sua resposta para tudo. Como se não ligasse para mais nada, como se o destino não importasse. Meu coração pesou, culpado. Eu não poderia abandoná-lo ali, depois de tirá-lo das garras do rio, e deixá-lo seguir seu caminho. Simplesmente virar as costas. Não era do meu feitio.
E por isso sempre me fodia.
Já esquecido completamente do encontro, sentei-me ao seu lado no meio-fio.
Seu olhar, ríspido e feroz, quase me fez correr, no entanto, não me daria por vencido tão facilmente. Um animal ferido precisando de resgate.
— Por que você se importa?
— Eu não me importo. Qual é o seu nome?
Você me olhou com uma expressão confusa, e algo em seu interior quebrou. Os seus ombros baixaram, e as barreiras, cuidadosamente erguidas contra todas as pessoas ao seu redor, não importavam mais.
Ainda assim, você não derramou uma lágrima.
Você estava cansado de chorar.
— Jesse — murmurou, tão baixo que sua voz quase foi roubada pelo ronco da tempestade, mas eu a ouvi.
Eu juro pelo túmulo da minha mãe que a ouvi. Baixinho e perdido.
— Meu nome é Alex Morris. — Tentei transmitir confiança. — Você quer ir pro meu apartamento?
Você pareceu surpreso, mas que alternativa você tinha? Seus olhos se arregalaram, surpresos, e volveram de mim para o parapeito; e de lá, para o horizonte.
Você se levantou, mais uma vez.
Eu o segui, tomei a sua mão, e o guiei em direção à minha casa.
Dizer não me importar foi a maior mentira que contei na vida.